Todos os dias quando acordo
Não tenho mais o tempo que passou.”
Renato Russo
Por que abordar o tema do envelhecimento em um portal dirigido a um público/leitor jovem?
Primeiramente, porque o aumento do envelhecimento populacional é um fenômeno mundial ocorrido no mundo moderno, segundo porque o campo de trabalho nessa área está em franca expansão, quer seja nos aspectos tecnológicos, urbanísticos, arquitetônicos, culturais, turísticos, sociais, econômicos, jurídicos, de saúde, entre outros. Além disso, porque urge que preconceitos sejam extirpados enquanto se é jovem, e que mudanças sejam promovidas no presente, pois dele o futuro depende.
Para referendar minhas considerações iniciais, lanço mão do último relatório técnico “Previsões sobre a População Mundial”, elaborado pelo Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da Organização das Nações Unidas [ONU]. Segundo o relatório, nos próximos 40 anos o número de pessoas com mais de 60 anos de idade será maior do que o atual. Os idosos representarão um quarto da população mundial, ou seja, cerca de 2 bilhões de indivíduos [ no total de 9,2 bilhões]. No critério da Organização Mundial de Saúde [OMS], é considerado idoso o habitante de país em desenvolvimento com 60 an0s ou mais e o habitante de país desenvolvido com ou acima de 65 anos. Em 2050, estima-se a expectativa de vida nos países desenvolvidos em 87,5 anos para homens e 92,5 para mulheres [ contra 70,6 e 78,4 em 1998]. Já nos países em desenvolvimento, será de 82 anos para homens e de 86 para mulheres. Tal fenômeno pode ser explicado, dentre diversos fatores, como decorrência da redução nas taxas de fecundidade e mortalidade.
Merece destaque, nessa toada, a mulher que, sob a influência das mudanças sociais ocorridas a partir da década de 60, alterou seu comportamento com conseqüências no mercado de trabalho, no nível da educação formal, no casamento, no número de filhos. A fecundidade passou a integrar os direitos individuais. No século XXI, a mulher tem a metade [ou menos] que a geração da sua mãe teve. Não só isso. A medicina preventiva, os programas de qualidade de vida, as novas tecnologias voltadas para a saúde contribuem para aumentar a longevidade, sem deixar de mencionar as quedas nas taxas de mortalidade infantil e ou prematura que aumentam a esperança de vida, a ampliação do saneamento básico, tratamento de água ou pelo uso de vacinas e antibióticos.
Com esse cenário se descortinando, grandes transformações deverão ocorrer.Importante ressaltar que esses novos velhos serão o produto de novas gerações, acostumadas com um mundo de tecnologia e de exigências completamente diferentes dos padrões de velhice creditados até então.Em vários países europeus, na América do Norte e até mesmo em determinadas camadas sociais brasileiras já se verifica que aposentadoria [ficar em aposento] não faz parte do cotidiano de inúmeros senhores e senhoras que amavam os Beatles e os Rolling Stones, que trabalham, divertem-se e buscam novos conhecimentos.
Se por um lado a conquista da longevidade é um avanço considerável para a humanidade, incluindo os brasileiros, deve-se chamar a atenção para os desafios que tal mudança traz em diversos setores da sociedade, despontando, no caso em tela, o sócio- econômico como carro chefe. Como bem menciona o geriatra Dr. Alexandre Kalache, “os países desenvolvidos enriqueceram e depois envelheceram. Nós, como todos os países pobres, estamos envelhecendo antes de enriquecer. Eles tiveram recursos e tempo. A frança levou 115 anos para dobrar de 7% para 14% a proporção de idosos na população. O Brasil vai fazer o mesmo em 19 anos”. Como aparato legal, a Lei 10.741 de 1º de outubro de 2003, o Estatuto do Idoso, trouxe avanços no que tange à regulamentação dos direitos das pessoas com idade igual ou superior a 60 anos.
Não obstante, estamos longe de atingir patamares adequados de cumprimento dos direitos fundamentais da pessoa idosa, e diante desse quadro, é imperioso que passemos, o quanto antes, de tratar o envelhecimento como pauta obrigatória nas pesquisas, nos estudos acadêmicos, nas escolas, na mídia, sob nova ótica. Não se pode mais, por exemplo, pensar em velhice sem, primeiro, expurgar estereótipos. Segundo, a economia, a previdência social, a assistência social, a saúde, a urbanização, o mercado de trabalho merecem extremada atenção e mentes criativas para a elaboração de soluções para o novo desafio de um país envelhecido e com um considerável atraso em relação ás propostas e programas públicos ou privados.
Meu caro leitor jovem, você já se perguntou quais as garantias que você tem para um futuro com seus direitos assegurados e sua dignidade preservada? Tenho uma notícia para lhe dar: você vai morrer, ou ficar velho. Deus queira que prevaleça a segunda hipótese. E só há essas duas. Nessa prevalência, naturalmente, você conquistará rugas, mobilidade reduzida, ausência de cabelos, menopausa, andropausa, artrites, artroses, entre outros, todos eles considerando que tudo ocorre mais com uns e menos com outros, afinal o envelhecimento é personalíssimo. Sua aposentadoria [?] será suficiente para sua sobrevivência? Se não, o mercado de trabalho estará apto para absorver a sua mão de obra? Em caso de doença, quem vai cuidar de você? Isso sem mencionar males que acometem idosos ,como Parkinson, Alzheimer, e pouco se investe em pesquisa nesses casos. A indústria farmacológica, como disse o Dr. Dráuzio Varela, tem mais interesse no comércio de silicones e de remédios contra a impotência.No futuro, teremos mulheres siliconadas e homens com ereção assegurada sem saber para que isso irá servir. E aumentando o número de idosos e a expectativa de vida...
Envelhecer é um direito. Dignidade também. E isso tem que ser consubstanciado, consolidado em nossa sociedade para os que estão velhos hoje e para os que envelhecerão. Não haverá milagre econômico, nem social para políticos de plantão fazerem suas campanhas. Não haverá milagre para sustentar a rede pública de saúde, onde o aumento de idosos será expressivo, nem previdência social que suporte um país envelhecido sem planejamento socioeconômico. Ainda, mencionando um jovem que não envelheceu, “O tempo não para”. E já estamos atrasados para construir uma sociedade mais justa e igualitária.
26.05.2009
Regina Garcia
Caro leitor, é um prazer participar do ECADERNO, ter a oportunidade de externar minhas opiniões sobre questões do mundo moderno. Meu nome é Regina Garcia, sou natural de Juiz de Fora, onde me formei, casei e tive meus dois maravilhosos filhos. Sou professora de português [redação] e assistente social, graduada pela UFJF. A língua portuguesa, a literatura, a área social, as questões que envolvem o ser humano em sua beleza e complexidade sempre permearam a minha vida. Estou entre aquele grupo de professores que sonhou com uma educação reflexiva e fundou Meta, onde lecionei com paixão. Trabalhei, na área social, com portadores de deficiência; na Prefeitura de Juiz de Fora, como Chefe do Departamento de Escola de Governo [SARH], com capacitação do servidor municipal; fui presidente do Conselho Municipal do Idoso em JF, onde atuei e muito aprendi sobre as questões do envelhecimento. Dou aulas, palestras, faço revisão de monografias e teses. Tenho paixão pela leitura, pela escrita, pelo cinema e pelas artes em geral. Gosto de perceber o mundo e as pessoas.
Comentários
AnisioEu envelheci e não vi o tempo passar. Só noto a mudança na pirâmide etária do país nos livros de geografia. Porque? Porque em nosso país não respeitam os idosos e eles muitas vezes ficam em suas casas, desolados, sem estrutura e sem opções de recreação que a administração pública não oferece. Parabéns por trazer esta importante reflexão.Helena Marinho EmimAcabo de assistir ao filme do Peter Pan que passou na rede Globo. O fim do capitão gancho se dá com crianças cantando "velho, sozinho e acabado". Que filme é esse e que exemplo deturpado é passado nessa obra voltada para crianças? Será que ser velho é ser errado? Regina, você foi muito feliz em trazer este tema para esse site dos estudantes, temos que fazê-los refletir sobre o papel dos novos velhos e todas essas mudanças que teremos que nos adaptar para quando formos também velhos, ser diferente.Otavio JM - ottattos@gmail.comUm texto muito coerente e inteligente... meus parabéns!Dr. FernandoExtraordinário o questionamento trazido pela colunista... falar sobre envelhecimento para jovens, futuros idosos... obrigado, professora. Quem dera esse assunto fosse levado para dentro das escolas, pois só se pode mudar o futuro ensinando para as crianças a necessidade de respeito ao próximo.F. TeixeiraÉ certo que o Brasil não tem estrutura socio-economico-cultural para enfrentar o envelhecimento da maneira que deveria ser enfrentado. Entretanto, são com análises como as feitas pela colunista que se pode mudar esse quadro, mostrando aos jovens de hoje, futuros idosos, a necessidade de se fazer algo ou pelo pelo menos pensar sobre.Diego F.Muito importante seu artigo Regina.Precisamos aprender a viver nesse novo mundo.Tudo está mudando muito rápido, só nossa cabeça que ainda está pré fistórica para algumas coisas.
Outra coisa que gostaria de sugerir era um debate sobre aqueciemento global e o que podemos fazer para contribuir com um mundo melhor.
Se isso não acontecer, provavelemente nossos bisnetos não terão a oportunidade de se preparar para uma "velhice".Regina GarciaDiego F.
Concordo plenamente com suas considerações sobre os futuros[?] velhos, adorei a sua provocação sobre a questão ambiental. Mas como disse Machado de Assis "palavra puxa palavra, idéia puxa idéia e assim a gente faz uma revolução". A questão ambiental é um bom tema a ser tratado em uma outra coluna.Quem sabe eu me aventure?
Um abraço!josé anísio da silva(pitico) - jaspitico@yahoo.com.brMuito bem Regina e parabéns por mais esse belo texto. É isso mesmo: o envelhecimento tem que ser tratado e visto por todas as idades, principalmente as mais jovens, como é o público majoritário desse portal, como você bem destaca aqui.. Educar para a velhice é muito importante. Desde cedo- entar em contato com as nossas despedidas e recomeços é fundamental; expressar as nossas fragilidades e potencialidades. É a vida. Maior que todos nós.