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Izaura Rocha

CULTURA

Cassaram meu diploma



Minha formatura, em março de 1985Cassaram o diploma dos jornalistas. Cassaram o meu diploma. Aquele documento guardado com tanto cuidado, orgulho e carinho, símbolo de uma primeira grande conquista pessoal, virou pó e foi varrido para debaixo do tapete da História, como um entulho da ditadura. Sim, junto com a Lei de Imprensa – esta, sem dúvida, um resquício anacrônico de tempos funestos – o diploma de jornalista de repente virou um filhote do regime de exceção, uma “excrescência”. 

Que fosse! Não foi com certeza com o espírito de calar a voz de ninguém mais ou de me aboletar no meu cadinho de uma suposta reserva de mercado que recebi o canudo em 1985 – ano, aliás, é bom lembrar, em que o país se redemocratizava com o primeiro presidente civil após duas décadas de regime militar. E foi sob o espírito desses novos ares de liberdade que minha turma recebeu seu título de bacharel em Comunicação Social. Me lembro bem das palavras de nossa paraninfa, a jornalista e escritora Cremilda Medina, ressaltando o papel da profissão naquele momento de tamanha envergadura histórica – o muito que ainda havia a fazer para livrar o país dos “entulhos da ditadura”. Palavras dela, que ecoaram muitas vezes durante a solenidade e ficaram para sempre na minha memória daquele dia feliz.

Não creio que Cremilda Medina incluísse a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista no rol dos entulhos da ditadura. A regulamentação da profissão era uma luta antiga, e o surgimento dos primeiros cursos de comunicação veio da necessidade de uma formação mais especializada – mais profissional – da atividade, tendo em vista a crescente complexidade que os meios de informação conheceram no século XX. 

Como parte de um segmento da poderosa indústria cultural, a comunicação de massa foi alvo de muitos estudos, e teorias foram desenvolvidas para pensar todo o processo de emissão e recepção de informações, todo o aspecto social envolvido na atividade. Anos antes, na década de 50, os jornais brasileiros se modernizaram, os métodos de apuração da notícia se aperfeiçoaram, e a própria linguagem jornalística se especializou. Quando me formei, as redações se preparavam para a informatização, concretizada – em Juiz de Fora – em meados dos anos 90, dando início à mais recente transformação que está impactando o jornalismo mundialmente.

Uma formação específica, realizada nos bancos das faculdades, não garante, é claro, o talento, a seriedade ou a competência de jornalista nenhum. Mas um bom curso de comunicação é necessário não só para familiarizar o futuro profissional com técnicas de apuração e redação jornalística, mas para qualificá-lo para o exercício consciente da profissão, compreender sua missão social e entender seus aspectos econômicos, culturais, sociais e ideológicos. 

Ser jornalista é muito mais do que saber escrever. Este é um dos equívocos da decisão do TSF: o jornalismo não se resume a escrever bem – e o jornalismo é, sim, uma profissão cujo exercício pode representar riscos para a sociedade. Que o digam os donos da Escola Base (alguém se lembra?), que tiveram suas vidas arrasadas em razão de um jornalismo irresponsável. Que o digam outras figuras públicas ou cidadãos comuns que foram vítimas da imprensa. Esse isco vai continuar existindo, com ou sem diploma – de qualquer área.

O problema da decisão do STF é que os venerandos ministros permaneceram com suas cabeças no jornalismo do século XIX. O jornalismo atual é algo muito diferente daquele do passado, é muito mais complexo e de repercussões imensas. Mais impressionante é a – aparente – ingenuidade do argumento fundamental para a desobrigatoriedade do diploma: a liberdade de expressão. Em primeiro lugar, quando é que – supondo que tal liberdade exista – o diploma foi um obstáculo a ela? Inúmeros não jornalistas (médicos, psicólogos, escritores, professores de literatura, cientistas, sociólogos, historiadores, músicos, astrólogos, astrônomos, físicos etc.) escrevem diariamente na imprensa em artigos e colunas e outros espaços disponibilizados
 pelos veículos. As redações sempre estiveram abertas a colaborações de outros profissionais para a abordagem de assuntos de sua competência específica. 

Em segundo lugar, liberdade de expressão de quem? À exceção das colaborações fixas ou esporádicas de articulistas e colunistas das mais diversas áreas, contratados ou convidados pelos veículos para opinarem sobre assuntos de sua área, o leitor por acaso acredita mesmo que, se quiser trabalhar na Veja, na Folha de São Paulo ou outro qualquer, poderá escrever o que bem quiser sobre qualquer assunto? O conteúdo de um jornal, revista, noticiário de TV ou rádio é definido em reuniões de pauta nos quais os fatos e informações que serão publicados ou divulgados passam por um processo de seleção com base em critérios jornalísticos e editoriais – isto é, a orientação ideológica da empresa.

Em terceiro lugar, uma coisa é opinião, e outra coisa é informação. E jornalismo, hoje, é, essencialmente, informação. Os espaços de opinião na imprensa são delimitados (ainda que o tratamento dado à informação denote, é claro, o peso e a abordagem do veículo). A notícia é o
 feijão-com-arroz da imprensa, e quem produz notícia é o repórter que recebe três pautas em média por dia, é quem vai cobrir o acidente na estrada, a reunião dos vereadores, a rebelião no presídio, os doentes morrendo nos corredores dos hospitais, o barraco que caiu no morro, a coletiva do prefeito, o campeonato de futebol, o lançamento de livro, a exposição de artes plásticas.

Jornalista é quem faz as entrevistas com as autoridades, com os especialistas e com o cidadão comum, é quem está sempre anotando ou gravando a fala do Outro. Esse é o jornalista que aprende logo que a tal objetividade jornalística é uma utopia, mas que ele deve reportar tudo com o máximo de isenção possível. Esse profissional não tem muito espaço para se expressar. Ele faz o feijão-com-arroz. Os quitutes mais elaborados – a reportagem, em que se pode fazer um texto mais impressivo, em que se aprofunda e contextualiza um fato – são momentos especiais, e nem todos têm a oportunidade de uma coluna própria. O jornalista escreve na terceira pessoa (por isso, talvez, essa minha enorme dificuldade de escrever na primeira, como faço hoje). 

Então, quem quer fazer o serviço pesado das redações? Será que os profissionais que virão de outras áreas vão querer? Se o problema é liberdade de expressão, aí estão os blogs. A internet, esse maravilhoso e terrível instrumento de comunicação, é o território livre que todos dispõem hoje para se manifestar sem restrições. Os blogs, twitter e outros espaços do gênero estão revolucionando e convulsionando o jornalismo, dando voz aos repórteres-cidadãos, aos críticos “amadores”. É preciso, porém, ser competente para conseguir se distinguir e não desaparecer nessa floresta densa que é a rede. Agora, nos veículos tradicionais, se sobreviverem a toda esta transformação, ou mesmo nas novas plataformas de comunicação, o que não pode acontecer é o jornalismo se tornar coisa de diletantes, de quem tem outra profissão e eventualmente se interessa por jornalismo.

Isso não tem nada a ver com reserva de mercado ou corporativismo. A formação em outras áreas é uma opção – e às vezes uma saída – para os jornalistas que buscam complementar sua educação, crescer ou se atualizar diante de um mundo onde a educação continuada é quase uma imposição. As afinidades entre os campos são muitas e abrem novas perspectivas e oportunidades, ampliam nossa visão de mundo. Por isso um dia fui cursar História, e por isso hoje faço o mestrado em Estudos Literários. Mas sou essencialmente uma jornalista, e acho que a profissão nos dá enormes vantagens em relação às outras, como a habilidade de falar para um público amplo e diversificado – sem os jargões que tornam determinados textos entendíveis apenas para iniciados - ou ter uma visão generalista (no que isso tem de positivo) sobre as coisas, e uma abertura ao novo. A idéia de os cursos de jornalismo se tornarem especializações, e não mais graduações, é uma possibilidade que deverá ser considerada seriamente diante desta nova realidade. Mas acho fundamental que as pessoas se sintam jornalistas em primeiro lugar: disso decorre uma série de coisas.

O grande desafio agora será assegurar que, mesmo sem a obrigatoriedade do canudo, a passagem por uma faculdade de jornalismo seja um diferencial que contará a favor de um candidato a uma vaga numa empresa de comunicação. Que seja o atestado de uma formação de excelência. Jornalista se faz na prática, não há dúvida. Mas que profissão não se faz? Quem não aprende a cada dia? Convivi com colegas, chefes e amigos que são jornalistas sem diploma, pessoas de grande talento e competência que fizeram seu prestígio nas redações e têm todo o respeito dos diplomados. 

Os jornalistas diplomados não devem ter nenhum ressentimento. O que me levou a escrever foi a discordância com os argumentos para o fim da exigência e as muitas comemorações da decisão do STF, reações festivas que expressam um chocante desprezo pelos jornalistas. Tais reações devem motivar uma reflexão profunda sobre a profissão, o exercício e o ensino de jornalismo, pois reproduzem uma opinião que está muito presente na sociedade. Como chegamos a esta imagem de leviandade? Culpa do diploma? Não acredito. Há muito mais por trás desta situação. Jornalismo é muito maior que o diploma, que, como documento, é um símbolo. Sua queda não muda automaticamente nada. Mudança mesmo só haverá se jornalistas – diplomados ou não -, professores, estudantes de jornalismo, teóricos do setor, se todos refletirem criticamente sobre o jornalismo hoje. Somente de uma reflexão séria e profunda poderá surgir um novo jornalismo e um novo jornalista.







21.06.2009

Izaura Rocha
Meu nome é Izaura e nunca tive dúvidas quanto ao que seria na vida: jornalista. Exerço a profissão há muitos anos em Juiz de Fora, com longa passagem pelas páginas da Tribuna de Minas e outra, mais breve, pelas do extinto Panorama. Adoro escrever, amo literatura e cinema, e nos últimos tempos atuei principalmente na editoria de Cultura. Atualmente, coordeno a Agência Experimental de Jornalismo da Faculdade Estácio de Sá de Juiz de Fora (FESJF), onde também tive a oportunidade de dar aula de Jornalismo Cultural, e sou editora do jornal “Palco”, do Cine-Theatro Central, trabalhando com bolsistas de Comunicação na Pró-Reitoria de Cultura da UFJF. A cultura, no seu sentido mais amplo, será tema desta coluna. Vamos discutir livros, filmes e tudo o mais, numa perspectiva de leitura desse velho admirável mundo novo.





Comentários

Regina Garcia
Izaura, saudações democráticas!
Assim é que nos reportávamos aos nossos colegas de universidade no final da década de 70, nas manifestações estudantis, nas assembléias estudantis.
Lembro-me, perfeitamente quando fui chamada, a portas fechadas, pela diretora de minha faculdade, comunicando-me que eu estava proibida de "panfletar" na faculdade de Direito, sob pena de sair presa de lá caso voltasse com os textos do DA.
Passaram-se os tempos da ditadura, criaram-se leis[textos, não?], o jornalismo cresceu no País, com a formação de novos profissionais e contribuição de velhos ícones, embora não diplomados jornalistas. Por outo lado, quanto mais leis são criadas, menores as suas observâncias, mais corrupção, nepotismo[e existe até súmula do STF]. Enquanto isso, uma boa parcela de jornalistas deste país vêm denunciando, através de excelentes matérias, os mandos e desmandos daqueles que criam textos como letras mortas.
É, Izaura, mudam-se os tempos, mas não as características daqueles que detêm o poder.
Dessa vez o "diretor" não quer que mais ninguém fale, escreva, entreviste com formação adequada. Dessa vez "ele"não ameaça com a prisão, mas amordaça com a arrogância.
Dizem que outros cursos sofrerão o mesmo processo. Lamentável, pois as ciências humanas têm um campo vastíssimo, é preciso que muitos estudos sejam feitos. As leis são o produto final.
Mais uma vez, digo: lamentável!!!!
Mas tenha a certeza que seu diploma não foi e nem será em vão. O "diretor" da faculdade dos idos de 76, hoje, sabe que os meus textos e minhas atitudes estavam corretos.
Há coisas que, para alguns, só o tempo mostra...
Saudações, suponho, ainda, democráticas, mesmo com posicionamentos despóticos, arrogantes.
Um abração solidário.


Izaura
Regina, você disse muito bem. Há muito mais por trás dessa decisão, e o problema é que tudo está sendo tratado tão superficialmente! Como se jornalismo fosse apenas uma questão de técnica. Palavras muito lúcidas e certeiras as suas. Obrigada pela solidariedade. Um abraço e saudações democráticas, sim, sempre!
Leon Denis
Izaura, eu também não consigo entender que interesses maiores são esses com essa decisão pelo fim do diploma. Será que vamos eternamente viver nesse país que desde a época colonial as profissoes valorizadas eram direito, engenharia e medicia? Querem enfraquecer nossa imprensa, isso é um absurdo.
Célio Vidal - celiovidal@acessa.com
Izaura, que coluna maravilhosa. Que bonito ver sua foto com o rosto de esperança e felicidade de quem ama escrever e ensinar. É como se hoje nosso país pegasse tudo que vinha sendo construído e derrubasse como um castelo de areia, uma lastimável pena. Só o tempo mostrará o quanto nosso país retrocede com tal atitude. Que pena não termos jornalistas fortes e representativos para mudar esse panorama. Nem as mídias podem critar, porque precisam do apoio do governo para continuarem vivos. Tudo é globalização, tudo é dinheiro e nada é conhecimento.
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