Publicidade (anuncie)

Atualize a sua versão do Flash.

Get Adobe Flash player

login: senha: Cadastre-se!

Leila Souza

REALIDADE BRASILEIRA

TRÁFICO / TRAFICANTE/ MÍDIA



Esse artigo não visa um tratado sociológico sobre questões pertinentes ao tráfico e suas representações, porém, é interessante para entendermos determinadas notícias que circulam nos meios de comunicação que várias são as nuances do crime, me aterei primeiramente ao Comando Vermelho do Rio de Janeiro.
O Comando Vermelho (CV) teve sua primeira geração iniciada por comunistas e bandidos que estavam encarcerados juntamente no presídio da Ilha Grande estado do RJ. O nome da Irmandade foi influência dos comunistas (vermelho) e, estabelecida uma relação de reciprocidade entre aqueles que dividiam as celas, criou-se o lema “Paz, Justiça e Liberdade”.
A partir da criação da Irmandade algumas regras ( dez mandamentos) e hierarquia foram estabelecidas e, com o término da ditadura militar, houve o afastamento voluntário de alguns presos políticos. A prisão de muitos líderes da primeira geração fez com que novas lideranças surgissem no mundo do crime, era a segunda geração do CV. Como as prisões dos chefes continuaram, novos líderes surgiram dando início à sua terceira geração.
Um representante da terceira geração do CV - traficante do Morro Dona Marta (RJ) -, Marcinho VP, o rei do morro Dona Marta.como seus antecessores, sofreu todo o tipo de arbitrariedade e desumanidade por parte da mídia, que inventou, deturpou e fraudou desde sua pessoa até sua voz. Assim, passo a questionar se a imprensa, realmente, clareia a verdade? Qual verdade? De quem? De qual classe social? Será que essa verdade “clareada” não reforça o sistema de dominação, de opressão e de exclusão social? Pelas lentes institucionais ao ser preso ele foi expelido para fora do lugar social, representando os agenciamentos nus e crus da exclusão: pobre, favelado, sem estudo, mulato, traficante,... bandido... produto, muitas vezes, gerado inconsequentemente pela mídia, que renova a cada dia os espetáculos de dores em detrimento de um jornalismo comprometido com o social, com a solidez e seriedade; que não esteja a serviço do Estado ou exercendo a função de policial, delegado e juiz.
Porque essa imprensa democrática divulga o traficante como um mal social, não fazendo o mesmo para quem sustenta o tráfico que são os que o consomem? O traficante é perseguido, tem seu nome e rosto estampados nos jornais, é temido pelas classes mais favorecidas, mas os nomes dos filhos dessas mesmas classes, que são em grande parte usuários, têm o anonimato e seus rostos guardados nas carteiras dos pais.
Vive-se em uma sociedade escópica, pois a visão é o sentido privilegiado na sociedade contemporânea. Por meio das imagens o mundo real se equipara a elas. Hoje, as imagens que invadem nosso cotidiano são shows de horrores que já estão banalizados, mas traz para o espectador um gozo excitante. Essa pulsão escópica é satisfeita no imaginário coletivo por possuir uma face silenciosa e trágica, mas que pela repetição não se apagam. Vive-se em uma exacerbação do imaginário e esse não se reduz à imaginação nem a acumulação das imagens, é o registro próprio da identificação especular; as diferenças entre mim e o outro são esvaziadas e substituídas por uma identificação entre nós.
A imagem tem o poder de fascinar, de capturar o seu espectador a ponto de ele se achar o próprio outro, assim, por meio das vias de comunicação se têm a criação de heróis ou vilões; a imagética midiática fabrica uma persona. Tudo é um espetáculo! A vida torna-se uma filmagem pelo olhar de quem a vê em tempo real. Por meio do olhar do outro o cotidiano alheio torna-se um show de entretenimento, em que qualquer um, a qualquer momento, arrisca-se a tornar - se celebridade, bastando para isso ser captado pelos olhos da mídia, que a tudo vêem, porque, cuidado! Você está sendo filmado!
A maioria dos presos em Bangu I, II e III, e de todos os cárceres brasileiros, são representantes da exclusão social e produto do Estado liberal. Esse tem autoridade sobre o indivíduo, porém, para um maior controle social, de maneira a não perder as “rédeas”, novas instituições são criadas, isto é, presídios de segurança máxima, em que os direitos humanos são cerceados e a própria lei repressiva transgredida. Todavia, as condutas normatizadas são vistas como corretas e adequadas; não se levando em conta que são falhas, pois a detenção eleva a reincidência. Quando libertados, ao invés da sociedade receber indivíduos reintegrados, ganha delinqüentes perigosos. Aqueles delinquentes são frutos de um cárcere sem produtividade, estagnado na inutilidade e que reproduz o poder existente fora das celas. Os carcereiros são mal pagos, ignorantes e, em sua maioria, corruptos. Tem o poder de vida e morte sobre os prisioneiros e, com isso, transformam os presídios em reproduções capitalistas, pois tudo vira mercadoria, inclusive direitos amparados pela lei. A estrutura física e psíquica dos presídios permite que o poder cristalizado pelas relações sociais se reproduza no meio da marginalidade, local em que as fronteiras entre o marginal e não marginal ficam borradas pela coerção, corrupção, arbitrariedade e, muitas vezes, por cegueira. Essa é só aparente, porquanto não ser a justiça cega, mas, digamos que se faça, para ser omissa e, até mesmo, maleável.
Grande maioria dos prisioneiros das penitenciarias cariocas é oriunda das favelas. Essas comunidades ocupam lugares privilegiados pela vista humana, o alto, porém são invisíveis. Quando cai um prédio na Barra da Tijuca há uma comoção social e até mesmo indenização; entretanto, quando uma casa desaba na favela, a culpa é contabilizada ao morador que “voluntariamente” foi morar ali; ricos mortos geram cenas de consternação; pobre morto é estatística.
Essas construções são comunidades virtuais, somente olhadas por meio das lentes midiáticas; resultam do monoculturalismo europeu que desembarcou no país juntamente com os colonizadores e que, no pós-colonialismo, foi substituído pelos americanos. Não obstante não sermos mais Colônia o país manteve as mesmas características econômicas, políticas e sociais, por conseguinte, a Casa Grande e Senzala. A Senzala é a favela, cuja maioria é negra, pobre e trabalhadora do asfalto, ou seja, da Casa Grande onde vivem os brancos e ricos. Por conseqüência, a cidade é dividida entre ela e um universo invisível, no entanto, o invisível não é divisível a “olhos nus”, sendo assim, só temos a cidade, que abriga os de sempre; representantes das classes dominantes e do poder institucional. A realidade desses invisíveis sociais transforma quem tem maior domínio de força, armas e dinheiro em protetores dos habitantes comunitários, provendo-lhes todo tipo de necessidade que os órgãos governamentais, ineficientes, acabam por "não ter conhecimento". Assim, cria-se um Estado Paralelo, por completa cumplicidade, omissão e descaso dos governos e da sociedade civil. E, aí, temos a discrepância de nos revoltarmos contra o traficante, mas quem mantém esse tráfico? Você não acha que são os Marcinho VP, Elias Maluco, Escadinhas, Beira-Mar da vida e da mídia? Então, pergunto: Quem eles protegem com suas vidas e uma existência muitas vezes humilde?
Esse artigo não visa uma defesa ao traficante, ao contrário, tenta mostrar como que se opera em construir, sonegar, camuflar e destorcer notícias criando uma cortina de fumaça para que os grandes traficantes possam transitar livremente pelas esferas sociais do país.
Realmente, é o Quarto poder que agencia os "laranjas", na desconstrução dos seus personagens, fragmentando e decompondo suas identidades até que só sobre a biológica, a do registro de nascimento e de morte, apenas um nome esquecido, como tantos outros, em uma lápide.


23.06.2009

Leila Souza
Caros leitores é um prazer estar com vocês, principalmente, porque essa coluna me deixa próxima de muitos que há algum tempo não vejo.
Chamo-me Leila, sou professora de História formada pela UFJF e lecionei por longos anos em várias instituições educacionais, como: Instituto Metodista Granbery; Sistema Meta de Ensino; Colégio e Curso Theorema; Instituto Allan Kardec; Colégio Anchieta; Colégio Ruy Barbosa (em Três Rios), entre tantos outros.
Fiz mestrado no Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CES), e, posteriormente, dei uma leve guinada em minha vida - mudei para o Rio de Janeiro -, com o fito de ingressar no Doutorado da PUC - Rio, todavia, a história me trouxe de volta à Juiz de Fora.
Durante meu doutorado tive contato com uma infinidade de linhas de estudo. Assim, comecei a estudar sobre o Comando Vermelho e o tráfico, tão divulgados na mídia. Posteriormente, voltei meu olhar para o estudo de biografias ao qual me atenho até então.





Comentários

Bruno Cerdeiro - brmmall@hotmail.com
Leila,

Será mesmo que nossa mídia tem que deixar de lado exemplos horríveis como os deixados por Marcinho VP para atacar os viciados que muitas vezes precisam é de ajuda? Não quero polemizar mas temos que ser coerentes.

Diego Flores - fdlfalce@hotmail.com
Apesar de não conhecer de perto nem o lado bom nem o ruim do que a mídia nos apresenta, até mesmo porque não sei analisa-la. Concordo com relação à idéia de que a gente perde muito tempo criticando os traficantes e esquecem que os "filhos de papai" ou os "problemáticos" e que bancam toda essa bandidagem. Adorei o assunto.
Celiana Marinho Musse - nao@falo.com
Tenho que concordar com o que o Bruno disse. Não podemos mudar o foco e esquecer que esses traficantes são seres humanos ruins. Capazes de matar e fazer o mal custe o que custar. Se os viciados eram ao usar tais drogas, acho que é um problema mundial que precisa ser revisto. Mas com relação aos marginais. Pena de morte para todos. Sempre Leio suas colunas Leila, mas nessa eu não concordei. Beijos
Taís Lima - taizinhafill@terra.com.br
Pena de morte em um país como o nosso onde a justiça e a injustica andam lado a lado? Leila, continue trazendo os vários lados da realidade em que vivemos. Já deu para perceber que se depender da opinião geral de quem não conhece nossos problemas a solução para tudo vai ser recomeçar o mundo em que vivemos. Concordam?
Luiz Claudio
Leila, sempre me perguntei o que há por traz desse grande comércio de armas, drogas, tráfico e também o que há por traz dos interesses das mídias e da nossa política. Não chego a nenhuma conclusão, acho que não tenho possibilidade nem conhecimento para tanto. Mas como eu gostaria de saber se realmente estamos sendo enganados, se realmente os Beira Mar e Marcinhos VP são bons ou ruins. É uma pena eu não conseguir ver alem...
leila moraes
Bruno, a coerência começa quando colocamos na balança o traficante e o usuário, porque, do contrário, estamos sendo parciais. Abraços. Leila
leila moraes
Taís, em momento algum sugeri ou mencionei a pena de morte, até porque sou contra. Acredito na recuperação dos prisioneiros via atendimento psicológico e trabalho, principalmente o trabalho, pois ocupa a mente e dignifica o homem. Obrigado por me escrever, abraços. Leila.
leila moraes
Luiz claudio, sou uma estudiosa do tráfico no Brasil há, pelo menos 5 anos e te digo de coração aberto, tem muito mais entre nós e o que se divulga do que nossa "vã filosofia" possa imaginar. Abraços e valeu a participação. Leila
leila moraes
Diego, que bom que você leu a coluna e gostou do assunto, outros virão. Leila o próximo. Grande abraço e obrigada. Leila
leila moraes
Celina, mesmo não concordando com minha escrita é muito bom saber que você disponibilizou um tempo para lê-la. Isso vale por tudo. Obrigada, bjos para vc também. Leila
José Albino - ze_bile@hotmail.com
Leila, meus parabéns pelo artigo... estava aqui em meu escritório e sem querer, fazendo algumas pesquisas "dei de cara" com ele. Quero lhe parabenizar pela visão social que tanto falta na sociedade em que vivemos, a visão que as vezes é ignorada para não nos depararmos com a verdade amarga e cruel, a melhor solução com certeza é fechar os olhos. Antes de analisarmos o indivíduo que cometeu um ato delituoso faz-se necessária a análise do meio em que este indivíduo convive, porém, infelizmente, este é o pensamento de poucos, mas cada um faz a sua parte.
Quanto à mídia, dispensa comentários por sua mediocridade e ignorância, veículo que muitas vezes leva o mal às pessoas, não obstante seu papel ser totalmente o contrário.
Meus sinceros parabéns e lhe desejo ainda mais sucesso em sua carreira.
Um grande abraço,

José Albino Neto.

Ecaderno.com - Av. Barão do Rio Branco, 2555 - sala 406 | Tel.: (32) 3061-3179 | Entre em contato