O diploma de jornalismo não é mais obrigatório para o exercício da profissão de jornalismo. E só o era por decreto de 1969 – até para fins de controle da informação pelo Estado no Regime Militar. Mas o diploma continua valendo e o critério básico para contratação ainda é a graduação, assim como acontece com outras profissões, como Ciência da Computação, Turismo, Rádio e Tv, Assessoria de Imprensa, entre outras. Nesses casos, o diploma não é obrigatório, mas é necessário.
Um dos temas da VIII Semana de Comunicação promovida pela Universidade Presidente Antônio Carlos (UNIPAC), que aconteceu em junho de 2009, foi "Os desafios e dilemas do jornalismo local". Bem ao primeiro dia dos trabalhos, o assunto da mesa redonda girava entorno da necessidade ou não do diploma de jornalismo para o exercício da profissão. A pergunta feita à mesa restringia o foco ao modo pelo qual as contratações são feitas, como são os processos seletivos e se é possível levar em consideração características outras que não as visíveis em currículos e diplomas.

Eis a questão: “Entre dois profissionais com o mesmo perfil técnico, evidente nos diplomas e certificados, como os senhores fazem pra separar o joio do trigo, aquele que possui mais sensibilidade, faro jornalístico e até paixão pelas pessoas que vão adquirir autonomia e criticidade através de informação de qualidade?”. Na verdade, diálogo foi mais abrangente. Ainda foram colocadas algumas questões que também mereceriam uma análise exclusiva. Em várias ocasiões, os jornalistas palestrantes pareciam meros donos de suas respectivas empresas quando voltavam muito o discurso para “qual seria a melhor forma dos meios impressos diários se tornarem competitivos no mercado da informação frente aos meios eletrônicos”. A sociedade deve discutir melhor a relevância do papel social do jornalismo enquanto educador e formador de opinião, característica cada vez mais ausente diante da mercantilização generalizada, tanto do mercado quanto do convívio social. Se a população não vê mais o jornalismo impresso como um símbolo de informação aprofundada e prefere a quantidade e a velocidade rasas dos meios fast-food e eletrônicos, a culpa também é do jornalismo que não exerceu esse papel de formador de opinião para o desenvolvimento social e a cidadania.
A graduação em jornalismo é um símbolo cada vez menos reconhecido culturalmente. As limitações impostas aos jornalistas pela capacidade de manipulação do poderio capitalista enfraqueceram a força legissígnica atribuída a um comunicador. Os participantes da mesa ressaltaram a importância da constante atualização e capacitação para se competir no mercado de trabalho. Nesse ponto, a graduação é o símbolo essencial na hora da contratação, mas não há indícios de quem é determinado candidato de verdade. Indica apenas que os diplomas são mesmo dos candidatos através das assinaturas e de outros ícones gráficos presentes naquele papel. O documento remete à instituição na qual o profissional se graduou, mas não há como discernir como ele se formou, ou com qual profundidade ele se atualiza (ou não) constantemente ou se ele possui a ética que se espera de um jornalista.
O simbolismo do diploma de comunicólogo se encontrava em xeque. O mundo se tornou veloz e as aparências são importantes. O diploma parece não ser mais necessário. Mas é preciso pensar nos objetos por trás dos signos para conseguirmos compreender esse dilema e usar essas conclusões como argumentos. Na verdade, o dilema do jornalismo não está no jornalismo: está na falta de educação da humanidade que parou de exercitar sua capacidade de pensar. Enquanto o diploma de jornalismo continuar a indicar uma formação tecnicista, onde o desenvolvimento da ciência é suplantado pela simples assimilação de conceitos e teorias, signos a esmo e descontextualizados, ambiente no qual são produzidas mentes engessadas e sem jogo de cintura (até mesmo para desconstruir essa tecnicidade), tem-se mesmo que discutir a obrigatoriedade do diploma – desse diploma que remete a essa falta de qualidade dos cursos de jornalismo e que aponta para um futuro profissional limitado.
Um forte paradigma a ser quebrado é o de crer que a não exigência do diploma seria um absurdo. Durante os debates, um jornalista não graduado em Faculdade de Jornalismo, Paulo César Magela, editor chefe do Jornal Tribuna de Minas, foi o último a comentar o assunto. Não há contexto atualmente onde um jornalista possa ser um autodidata como ele foi. Exige-se que o profissional saia da faculdade “sabendo tudo”. Diante dessa impossibilidade, ensina-se um tudo-raso aos estudantes. Não sobra tempo para gerar sequer autonomia psicológica, quanto mais enraizar curiosidade real e sensibilidade social, matérias primas essenciais para um bom comunicador, nas mentes nas quais essas posturas não são naturalmente inerentes. Sai-se da faculdade com excesso de técnica; entra-se num mercado de trabalho que exige basicamente essa superficialidade. É isso que o diploma de jornalismo passou a simbolizar.
Porém não se deve generalizar. Existem bons profissionais com diploma por aí. A falta de compromisso social não é exclusiva dos jornalistas: médicos, professores e outras profissões ligadas ao social também sofrem por causa da velocidade dos tempos e da desumanização das pessoas. Talvez, com a não obrigatoriedade do diploma de jornalismo, as empresas de comunicação parem de contratar diplomas para contratar as pessoas por trás de seus diplomas e suas verdadeiras qualidades e talentos.