
Escolher um curso de graduação não é fácil. Hoje em dia, as várias opções em formação profissional e as cobranças de constante atualização do mercado permeiam a cabeça dos jovens estudantes. Somado a isso, existe a expectativa e a preocupação dos pais em relação ao futuro dos filhos. O que é mais importante: satisfação pessoal ou retorno financeiro?
É normal que os jovens estudantes tenham tantas dúvidas e, conseqüentemente, medo de fazer a opção errada. Será que existe uma receita para escolher o melhor curso de graduação? E depois que eu já estiver na faculdade? Devem mudar de área caso não gostem do curso que escolheram? Com certeza, cada caso é um caso. Mas uma conversa com um profissional da área de orientação vocacional pode ajudar a sanar dúvidas e tomar decisões mais embasadas.
Em entrevista ao Ecaderno, a psicopedagoga Cristina Coronha falou sobre a importância do conhecimento prévio do mercado de trabalho, das expectativas da sociedade em relação aos jovens profissionais e, é claro, a influência dos pais na escolha da profissão.
Pai e mãe ajudam ou atrapalham?
Segundo Cristina, a influência dos pais acontece sempre. Ela pode ser positiva ou não, de forma velada ou direta. “A influência dos pais vem muitas vezes pelo fato de o filho admirar ou se inspirar neles pela segurança e estabilidade que é passada no seio familiar. Ou o pai cria situações que envolvem vantagens para o jovem, estimulando-o indiretamente”.
Essa sensação de estabilidade e conforto por seguir o caminho traçado pelos pais pode ser apenas temporária, como explica Cristina. “Tenho exemplos de pacientes que chegaram a cursar de dois a três anos de um curso escolhido estimulados pelo exemplo ou sugestão dos pais e chegaram em um momento em que eles não conseguiram continuar”. Ou seja, mais cedo ou mais tarde as conseqüências da sua escolha irão bater à porta.
Se a influência é inevitável, como garantir que o jovem não vai se arrepender depois de alguns ou muitos anos? Cristina alerta que a decisão certa sobre a carreira profissional depende do conhecimento sobre si mesmo. Nesse momento, o trabalho dos pais é importante. “Tudo fica mais fácil quando a pessoa sabe como vê a vida e se conhece, desde a infância: ‘Eu sou isso, eu vejo o mundo dessa forma, eu valorizo isso então essa é minha escolha’. A família precisa auxiliar, resgatando atitudes, preferências e habilidades manifestadas na infância.”
Conhecimento do mercado
Além de se conhecer, é importante que o jovem procure se informar muito bem sobre o curso no qual pretende ingressar, o mercado de trabalho e o dia a dia dessa profissão. “O jovem confunde o que gosta de fazer nas suas horas livres com o que quer pra vida profissional. Ele não procura saber e nem é orientado para ver as matérias que o curso oferece, nem quais são as possibilidades de determinada profissão na prática e por isso, muitas vezes, opta por um curso que não vai gostar”.
Depois de ingressar na faculdade, a atenção deve ser mantida. Muitas vezes, os cursos privilegiam a teoria e o estudante pode sair despreparado da graduação. Cristina é enfática nessa questão “O estágio é um excelente laboratório para se vivenciar, desde cedo ,a futura dinâmica profissional,o que irá favorecer a capacitação , o amadurecimento e o enriquecendo o currículo que começa a ser formado. Falta reformulação no currículo da graduação e da pós-graduação”.
O despreparo pode acarretar insatisfação na carreira. Nessas horas, mais uma vez, a presença da família é fundamental. “É o que nós, psicopedagogos, chamamos de escuta sensível. A família tem que perceber o que está passando na cabeça do filho através das manifestações diárias e mostrar que muitas vezes desistir de curso e tentar outro é melhor do que terminá-lo sem gostar”. Cristina explica que “uma escolha errada pode acarretar insatisfação, desinteresse nos estudos, irritabilidade e até manifestações de depressão, que aparecem naqueles momentos em que o jovem sente que algo vai mal com ele sem saber identificar a causa. Nessas horas a presença da família também é fundamental”.
O que o mundo vai cobrar de você
A escolha do curso de graduação também é influenciada por fatores sociais e culturais. O primeiro deles é o excesso de informação que incide sobre o jovem, mas que, na maioria das vezes, não é absorvido. “As escolas não preparam, não capacitam e não orientam esses alunos. É necessária uma ‘orientação para o trabalho’. Assim na hora de escolher ele é capaz de ampliar o raio de opções”.
O segundo fator, na opinião da psicopedagoga, seria a facilidade característica na vida dos jovens de hoje. “Quando ele percebe que tem que fazer esforço e buscar sua autonomia, muitas vezes acaba se frustrando ou desistindo. Ele acha que a faculdade é algo que pode ser comparado instantaneamente com pura satisfação e prazer e não é isso que acontece, porque é preciso dedicação, esforço e estudo”.
A cobrança por produtividade, a pressa e a constante necessidade de capacitação dos profissionais também pode aumentar a confusão na cabeça do estudante antes de escolher a profissão. “É o que chamamos de síndrome da urgência. Isso faz com que vivamos sempre na superficialidade das coisas, correndo contra o tempo e não ao lado dele. Nunca dá tempo de se aprofundar mais. Essa realidade faz com que, por vezes, nós nos afastemos dos sonhos.”
Novos cursos
Somado a todos esses fatores, estão os novos cursos que surgem nas universidades. Para Cristina, é bom poder vivenciar uma área específica para cada tipo profissional. Porém, “esses cursos acabam muitas vezes sendo deixados de lado por comodidade, tradicionalismo e modismo”, salienta. “Essa criação de cursos novos e modernos está em grande crescimento. Os antigos não deixaram de ter valor, mas tendem a ficar esquecidos por um tempo”.
Apesar da falta de conhecimento em relação às novas áreas, que acontece com freqüência, o jovem de hoje é muito mais aberto a novas experiências. Além disso, a sociedade vem se modificando. “As próprias universidades estão se movimentando de forma a facilitar a vida do jovem. Isso tanto no processo seletivo quanto lá dentro. A UFJF, por exemplo, está implantando a graduação com uma formação interdisciplinar e isso é muito bom para os jovens de hoje”.
A Orientação Vocacional
Com tantos aspectos a se considerar, muitas vezes a ajuda de um profissional pode ajudar o jovem a se situar no universo profissional. O trabalho de orientação vocacional é a maneira mais utilizada por psicólogos e pedagogos para entender a necessidade de cada um. Para saber como ele funciona, Cristina explicou o passo a passo da avaliação que ela aplica e a quais resultados se pode chegar.
Ao fim do teste, Cristina busca incentivar a participação da família: “esse vínculo é essencial para ajudar na escolha e no andamento profissional do sujeito. O jovem tende a querer reproduzir a beleza da família”.
Agora é só aproveitar as dicas do Ecaderno e botar a mão na massa! Bons estudos.